Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas

Frente Indígena pede investigação ao MPF sobre impacto de fake news na vacinação dos povos indígenas

quinta-feira, 25 de março de 2021 / Categorias: Covid-19, Nota, Povos indígenas

A coordenadora da Frente Parlamentar Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas (FPMDDPI), Joenia Wapichana (REDE-RR), enviou nesta quinta-feira (25) um ofício em que pede ao MPF investigação sobre o impacto das fake news na vacinação dos povos indígenas. Segundo relatos, no dia 2 de fevereiro, um helicóptero da Força Aérea Brasileira foi recebido às margens do rio Purus por homens e mulheres com arcos e flechas, impedindo que agentes de saúde e doses de vacina contra o coronavírus entrassem na terra indígena dos Jamamadi, no município de Lábrea, no sul do Amazonas.

O povo Jamamadi está sujeito a uma política específica por parte da Fundação Nacional do Índio (Funai) e é considerado grupo prioritário para receber o imunizante, assim como os 410 mil indígenas adultos em aldeias brasileiras, número especificado no Plano Nacional de Vacinação. O motivo dessa reação com a equipe e a não aceitação da vacina seria o temor de que ela tenha um efeito contrário do anunciado. Os Jamamadi pedem o retorno de um missionário americano proibido de entrar na região pela Funai, para que ele os oriente sobre as questões da vacina. 

Outras comunidades amazonenses estão sendo influenciadas por pastores evangélicos e se recusam a receber os imunizantes. Perpétua Tsuni, liderança do povo Kokama, revelou em entrevista que líderes religiosos espalham entre os membros das comunidades que o imunizante os transformaria em animais homossexuais, ou os mataria e que além disso um chip seria implantado e que seria a ‘marca da besta’. Esse tipo de fake news está provocando conflito entre os líderes das comunidades que querem os imunizantes e indígenas evangélicos que seguem acreditando nessas pregações. 

O mesmo cenário está sendo presenciado em outras comunidades, como do Vale do Javari, que tem a maior concentração de povos isolados do mundo. “Aldeias já disseram à Sesai que não irão aceitar a vacina”, conta Beto Marubo, da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Unijava). “A atuação de grupos religiosos nesse contexto de pandemia é tão nefasta quanto o coronavírus. Isso nos desestabiliza, cria incerteza, desconfiança com a vacina”, declara. Essa campanha de desinformação é difundida via áudios e vídeos pelo celular, pelo sistema de radiofonia entre as aldeias e por cultos presenciais. No Maranhão a maior influência seria da igreja Assembleia de Deus. 

Joenia ressalta que a desinformação propagada pelo governo federal sobre a pandemia e a segurança das vacinas, atinge gravemente as comunidades indígenas, já que essas mentiras precederam as vacinas, via mensagens de whatsapp e outras fontes. 

“Considerando a reconhecida vulnerabilidade epidemiológica dos povos indígenas, a dificuldade de acesso à vacinas, inclusive logística e mais recentemente o início de pressão para que as vacinas destinadas aos indígenas ainda não utilizadas tenham outro destino, solicito que se tomem as providências necessárias para investigar o impacto que a fakes news propagadas tem sobre a vacinação dos povos indígenas e punir os responsáveis pelas possíveis condutas criminosas”, declarou Joenia em ofício, pedindo que medidas sejam tomadas urgentemente.